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Bullying e minha jornada de cura

Eu sofri bullying na minha pré-adolescência e adolescência. Não sei dizer por quantos anos, mas posso dizer que foram o suficiente para deixar marcas profundas e para ditar meu comportamento por muito tempo… Eu nunca contei a ninguém que sofria bullying. Sofri sozinha. Não contei aos meus pais, ao meu irmão ou aos meus amigos. Desconfio que alguns deles sabiam, pois as investidas dos meninos que me ofendiam eram públicas e não raras. Mas ninguém nunca me defendeu. E eu nunca pedi ajuda. Fui falar francamente sobre o que aconteceu há cerca de três anos, no sofá do meu terapeuta, com lágrimas caindo sem parar. Chorando como uma menina de 13 anos. Chorando a menina de 13 anos ainda dentro de mim. Depois de mais de 15 anos alojando vergonha e medo dentro de mim, era a hora de me libertar.

Decidi contar minha história aqui porque trabalhei bastante nos Estados Unidos (onde morei por seis anos) com crianças e adolescentes e muitos dos casos que chegavam até o meu sofá eram de clientes vítimas de bullying e que haviam passado, com isso, a sofrer de depressão, ansiedade e, geralmente, contemplar o suicídio. Existem casos recentes nos EUA de crianças que tiraram suas vidas (ou tiveram uma tentativa frustrada) por causa de cyberbullying. Tenho certeza de que no Brasil essa realidade também existe e as aulas acabam de recomeçar… Mas aqui calamos muito mais do que lá. Cada vez que encontrava no meu consultório um cliente com histórico de bullying sentia que era a vida me oferecendo a oportunidade de fazer por eles o que eu não deixei ninguém fazer por mim: ajudá-los a eliminar o bullying de suas vidas e lidar com o trauma gerado, para que dessa forma eles não deixem a agressão ditar suas decisões e pensamentos no futuro.

Não é nada fácil abrir minha intimidade dessa forma e agradeço desde já por sua paciência para ler esse longo e extremamente honesto e carnal texto. Ao escrever, as lágrimas correm… Mas a ideia desta escrita sempre volta a minha mente e sinto que é uma obrigação escrevê-la para conscientizar pais, professores, irmãos, amigos e adultos em geral sobre a importância de combater e lidar com o bullying de maneira honesta, reconhecendo e respeitando o sofrimento das vítimas (que deixam de ser vítimas ao denunciar e agir) e compreendendo  de onde vem as atitudes dos agressores. Espero ser um exemplo de como a resignação pode gerar traumas e afetar vidas e decisões e o que pode ser feito para evitar esse cenário.

Não me lembro de como começou, nem se existe um motivo específico (duvido muito), mas cerca de cinco (às vezes mais) meninos da minha sala passaram a destacar e tirar sarro de feridas e manchas na parte inferior das minhas pernas. Por muitos anos me chamaram de Pirenta (que eu vim a descobrir depois que significa alguém com muitas feridas), de Pira… Cantavam musiquinhas, gritavam meu “apelido” no fundo da sala ou, em meio a um aglomerado, riam de mim sem o menor pudor. Eu sofria calada. Eu temia quando seria o novo ataque. Eu não tinha paz. Dentro de mim existia uma certeza de que a agressão ocorria porque eles tinham problemas pessoais e apontar o meu “defeito” era uma das formas encontradas para sentirem-se melhor. Faz muito sentido e pesquisas provam que, na maioria das vezes, esse é o caso, somado ao fato de que muitos dos agressores verbais também sofreram ou sofrem bullying e fazem o mesmo pra lidar com a dor e a raiva. Saber disso eu sabia, mas não fez doer menos.

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Eu sou alérgica a picadas de pernilongo. Quando eu era pequena, se um pernilongo me picasse eu coçava a minha pele até gerar uma ferida – e eu cresci na região Amazônica, pense numa legião diária de pernilongos ao meu redor! Muitas vezes as feridas grandes secavam e, por algum motivo da minha fisiologia, ao cicatrizar deixavam marcas escuras na minha pele. Minha mãe fazia o que podia pra me ajudar, mandava eu não coçar, tentava me dar vacinas para a alergia, passava pomadas… Tudo em vão. Minhas pernas tem marcas desde aquela época e, apesar da meditação ter melhorado muito meu controle sobre as coceiras e a alergia, ainda tenho algumas feridinhas de vez em quando.

Por conta do bullying eu praticamente passei a usar só calça comprida. As ocasiões em que mostrava minhas pernocas eram após bronzear bem meu corpo e pernas para mascarar um pouco as manchas. Sempre tive inveja das minhas amigas que usavam saias ou vestidos curtinhos, que desfilavam suas pernas lisas e belas por aí… Evitava ao máximo locais e situações com grande incidência de população de muriçocas! Por muitos anos me achei inadequada, feia, quase deficiente por conta das manchas. Muitas vezes me achei incapaz de ser desejada ou admirada e, na minha mente, a única coisa que um garoto ou homem poderia ver em mim eram minhas marcas. Era como se eles, os meninos, continuassem gritando eternamente “Pirenta” dentro de mim. Criei esse fantasma na minha imaginação e dei asas para ele voar livre, leve e solto por muitos anos.

O problema do bullying é que, quando criança, ainda não temos capacidade cognitiva de questionar e lidar com os insultos e ataques. Aceitamos o que nos é dito como lei, como verdade absoluta, memorizamos tudo na parte mais primitiva do cérebro, que também é a mais desafiadora na hora de mudar. Acreditamos na agressão, nos apelidos… O trauma faz a memória tornar-se estagnada e repetitiva na mente. A vergonha e o medo nos cala, nos paralisa, gerando sintomas mentais e físicos. A memória gera pensamentos e emoções, que geram ações que, a longo prazo, geram nossa realidade…

Minha cura começou quando decidi finalmente contar ao meu terapeuta sobre o bullying. Muitas vezes, na terapia, reprimimos as experiências que nos marcaram profundamente, por medo inconsciente (ou até consciente) de finalmente libertá-las. Medo de lidar com as emoções e consequências que virão ao trazer luz às feridas. Mas nada nos mantém mais prisioneiros do que os nossos próprios pensamentos.  Ou como diz o famoso poeta Rumi, “A ferida é a abertura por onde a luz consegue entrar”.

Um tempo depois de começar a processar o meu trauma “no divã”, decidi fazer algo chamado Integração Estrutural (também conhecido como Rolfing) onde, por 10 sessões, seu corpo é praticamente realinhado por meio de uma massagem profunda. Com isso, teria de dividir uma sala grande com outros 5 massagistas e seus respectivos clientes e ficar apenas de top e short curto na frente dessa galera toda. O pânico desse cenário foi vencido pelo desejo de, finalmente, quebrar dentro de mim o meu autopreconceito e ilusão. Decidi que era a hora de por o meu bloco, ops, minhas pernas na rua!

No ínicio de cada sessão nós, os clientes, tínhamos de “desfilar“ e ficar em pé, parados, para o grupo de massagistas para que o supervisor deles desse instruções de como seguir com o processo. Para piorar a situação, meu massagista era gato com força (ao menos na minha opinião)… Ninguém merece! Mas logo entendi que a minha decisão e essas sessões eram um presente divino. Uma oferta de cura e entrega. Uma oportunidade de me perdoar por ter escondido parte de mim por tanto tempo. Era chegado o momento radical de autoaceitação.

Um dia o supervisor da turma mostrou delicadamente para o meu massagista a discrepância entre a parte superior (minhas coxas que praticamente não têm manchas) e a parte inferior da minha perna (menor, mais magra, desproporcional e com manchas). Disse sutilmente que faltava energia nesse pedaço do meu corpo em relação ao restante e pediu para o meu massagista me relembrar o quanto minhas pernas eram perfeitas, saudáveis, bonitas e fortes. Naquele dia, durante a sessão de quase duas horas, chorei silenciosamente. As lágrimas molhavam a mesa de massagem. Eu estava exposta ao extremo, vulnerável ao cubo. Um homem atraente estava, não somente olhando cada detalhe das minhas pernas e das minhas manchas, mas também consciente de todo o sofrimento que elas carregavam. Ele foi gentil, doce e serei eternamente grata pelo profissionalismo e carinho que ele me ofertou.

No final da sessão contei para duas amigas (também fazendo as massagens) sobre o bullying. Com água nos olhos dividi minha dor com amigos pela primeira vez. Cheguei em casa e chorei mais, dessa vez reconhecendo os efeitos físicos dos meus pensamentos. Sim, materializamos nossos pensamentos. Eu tanto me autocritiquei, tanto me envergonhei, tanto me escondi, me julguei, que minhas pernas não se desenvolveram totalmente, ficaram fracas, sem vida, sem luz. Acarinhei minhas pernas. Pedi perdão a elas. Sim, perdoar é preciso… chorar é preciso… Prometi amá-las e aceitá-las profundamente. Fizemos as pazes ou, ao menos, começamos o processo…

Hoje consigo usar muito mais vestidos curtos do que antes. Consigo sair na rua com minhas pernocas de fora sem pensar o tempo todo se alguém está julgando elas ou não (sem ser self-conscious como se diz nos EUA). Ainda tenho espaço para curar, pois pensamentos e comportamentos que se perpetuam por muitos anos demoram um cadinho para serem totalmente transformados. No entanto, me amo muito mais. E adivinhem? A parte inferior das minhas pernas estão mais cheias e energizadas. Estão vivas! Me orgulho delas! Além disso, as coceiras diminuíram consideravelmente. Em parte porque, como já citei antes, graças à meditação, consigo controlar o impulso de coçar, mas acredito que a autoaceitação e a diminuição do glúten da minha alimentação também têm ajudado.

Então é isso. Minha estória é longa. Talvez soe boba para você, mas para mim foi (e ainda é) de profunda seriedade e beleza. Cada um de nós tem uma (ou algumas) batalha(s) para ser(em) lutada(s). Essa foi uma das minhas… Mas não me culpo pela demora em curá-la. Tudo acontece na hora certa e sou grata pela oportunidade de dividir meu relato com vocês. Escrever sobre ele faz parte da minha cura. Além disso, acredito muito que cada desafio é uma benção e sou grata por tudo o que passei, pois me fortaleceu, aumentou meu autoamor independentemente da minha imagem corporal (somos tão mais que o nosso corpo) e fez nascer dentro de mim compaixão e empatia necessárias para ajudar pessoas com o mesmo tipo de situação. Todo “problema” (não acredito nessa palavra, mas vamos lá) é um presente divino, caros leitores! Agradeço também aos que me atacaram e espero que eles hoje tenham consciência da dor que geraram e que tenham curado suas próprias dores!

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