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O silêncio e o reencontro com a alma

“O homem não pode atingir a verdade por intermédio de nenhuma organização, de nenhum credo (…) Ele tem de encontrá-la através dos relacionamentos, através da compreensão dos conteúdos da sua própria mente, através da observação” ~ Krishnamurti

O silêncio é a porta de entrada para o encontro com a alma, com nosso Eu Maior, com nosso puro potencial. Foi em busca desse reencontro que eu, mais uma vez, embarquei em um retiro de silêncio. O primeiro em que participaria em solo brasileiro, o primeiro onde pouca informação preparatória chegou até mim. Seriam cinco dias comungando com a ausência da fala, do toque, do contato com o outro. Seriam cinco dias dedicados a integrar, internamente, a mais propagada definição do que é Yoga (por Patanjali): “Yoga Chitta Vritti Nirodhah”, ou “O aquietamento das ondas mentais é Yoga”.

Nazaré

O chamado que vem de dentro

A decisão foi fruto de alguns pedidos internos: o primeiro era o de, literalmente, me calar. Desde que regressei ao Brasil, no final de agosto, tenho falado como uma matraca ambulante. Visitando família e amigos e sempre colocando o papo em dia, respondendo muitas perguntas de como era a vida lá (em Miami) e de como ela será aqui. Interessante como vivemos sempre no passado e/ou no futuro. Conto nos dedos de uma mão as pessoas que me perguntaram como eu estava me sentindo naquele momento. Somos viciados no tempo que não é, deixando assim de saborear o que está acontecendo no agora…

Entres os outros pedidos estava o de voltar a ter uma rotina mais longa e múltipla de meditação (que também foi quebrada pela falta de rotina e viagens); o desejo de conhecer o facilitador do retiro, Marco Schultz, professor de yoga e autoconhecimento extremamente respeitado no Brasil e, principalmente, o pedido de me ancorar, de aterrissar, de chegar definitivamente em solo tupiniquim. Muitas vezes não ofertamos tempo suficiente para viver os processos de mudança e transição, o que acaba gerando stress, ansiedade, depressão… Eu, hoje mais experiente e consciente dessa importância, ofereci esses dias para apertar a tecla interna “reset” e enfim sentir-me parte desta terra linda novamente.

O retiro aconteceu na Nazaré Uniluz, local maravilhoso e acolhedor que fica a cerca de uma hora e meia de São Paulo e que, há mais de 30 anos, oferece cursos, vivências e retiros de auto-conhecimento e desenvolvimento. O local é abraçado por uma vegetação rica, borboletas, passarinhos e lagartos. As árvores movem-se tranquilamente com a brisa gostosa das manhãs e finais de tarde.

A entrega ao processo

Na quarta-feira, logo após a tradicional meditação do meio-dia, um beija-flor nos recebeu na janela da sala comunitária onde eram servidas as refeições e onde comemos um delicioso almoço vegetariano (com grande parte dos alimentos providos pela horta deles). Os quartos por lá são todos individuais. Limpos e simples, trazem uma atmosfera de mosteiro encantadora. Não existem imagens, nem ao menos quadros nas paredes. Por lá a pluralidade é respeitada e a espiritualidade vai muito além de religiões ou filosofias. Tudo que é do bem é bem-vindo, é acolhido.

Logo após o almoço fomos para o que seria nossa sala de yoga, integrar e introduzir a turma. Ao centro da sala um oráculo com cartas de anjos (viradas para baixo) nos aguardava. Você simplesmente tinha de escolher uma. Eu, não por acaso, tirei o Anjo do Silêncio, apenas uma confirmação de que estava no local certo, no momento certo. Grande parte do grupo era composto por alunos do curso de formação e aprofundamento em Yoga do Marco Schultz, já que para eles o retiro é mandatório (e importante na formação). Depois da troca fomos assistir ao filme O Pequeno Buda, de profunda riqueza para nossa experiência. Em uma das cenas mais tocantes, Buda (Keanue Reeves) diz aos seus discípulos “Aprender é mudar”. Me arrepiei toda. O quanto evitamos, lutamos, negamos o mudar… Ao final, só ele nos engrandece!

O restante do dia passou rapidamente, jantamos saladas, sopa e pão fresquinho. A noite foi encerrada com um Satsang (do Sânscrito, Sat significa verdade e Sangha significa reunião, encontro de um grupo com o mesmo propósito) com o Marco. Ele nos passou conceitos importantes sobre o que estava por vir. “Meditação é o ato de descolar-se da fixação de controle… Não tem que tentar…”, disse, já destacando um dos maiores vícios do ser humano (eu inclusa): o de tentar controlar… tudo…

O ritmo do silêncio e da prática

A quinta-feira nos brindou com uma manhã clara e com a trilha sonora de diversos pássaros. A primeira meditação do dia era sempre feita na sala exclusiva para meditação: ela foi construída há mais de 20 anos, por trabalhadores em total silêncio, e não se pode falar absolutamente nada nem dentro, nem nas imediações dela. A sala é redonda, com janelas amplas para a natureza. A vibração do lugar é quase palpável. Meu corpo, como acontece algumas vezes quando vou a locais especiais energeticamente, vibrava e fazia movimentos involuntários sutis, em espiral. Ao término da prática me sentia contente e satisfeita por estar em um local tão único. Feliz por saber que no Brasil esses vértices de vibrações existem. Era hora do café da manhã, que por lá é tradicionalmente degustado em total silêncio.

A partir da quinta, nossa rotina já estava definida: primeira meditação no início da manhã (6:40), café da manhã, yoga ou seva (serviço em Sânscrito), almoço, descanso, lanche, meditação, atividade meditativa (filme ou caminhada), meditação, jantar, Satsang. Penso que a sequencia de atividades foi cuidadosamente criada para nos manter presente no agora, gerando assim o estado meditativo mesmo fora da “prática da meditação”. Além disso, antes de cada refeição fazíamos algo muito especial: de mãos dadas, olhos fechados e em círculo, silenciávamos ainda mais, por reverência aos alimentos e também para nos ancorar no presente!

Seva significa serviço e é basicamente trabalhar em algo como limpeza ou preparo de alimentos, ações que vão beneficiar toda a comunidade aonde você está. Isso significa varrer e limpar salas, banheiros, jardim, fazer pão, lavar louça, preparar a comida do almoço, etc. O seva objetiva ser uma entrega de suas ações para beneficiar o próximo e exaltar o Divino. Servimos com consciência e amor (ao menos a idéia é essa) e o servir nos gera humilhação e contato maior com a gratidão. É uma forma de retribuir toda a abundância que nos é ofertada. Como boa virginiana que sou, eu amo fazer seva e foi maravilhoso ver muita gente entendendo e experienciando a benção de ofertar seu tempo e trabalho ao outro e ao Todo.

Na quinta, iniciamos o Nobre Silêncio. Foi interessante observar a reação das pessoas. Evitei olhar muito, pois isso também é uma distração da mente. A questão é: a mente não pára praticamente nunca, mas podemos diminuir consideravelmente seu ritmo frenético de pensamentos e tornar-nos observadores de primeira de suas atividades. Com esse conhecimento, podemos então “domar” essa safadinha e usá-la ao nosso favor para nos engrandecer e assim melhorar a realidade individual e coletiva em que estamos. E domar, muitas vezes, significa observar sem apegar-se, sem identificar-se com a mente e seus pensamentos.

Quando conseguimos diferenciar o observador daquilo que é observado tudo se simplifica, ganha cor nova, cheiro bom de terra molhada! E o silêncio é fator primordial na ajuda dessa aquietação interna, desse descolamento: observador – “objeto observado”. Se nos dedicamos a ele com afinco, a prática meditativa torna-se bem mais produtiva e definitavemente temos a experiência de transformar-nos em cientistas de nós mesmos, ou auto-cientistas, vocês entenderam a idéia né?

Os desafios ou bençãos disfarçadas!

É importante ressaltar que 80% da comunicação é não verbal. Ou seja, expressões faciais, toques, gestos com o corpo e conversas via olhares também quebram o silêncio interno, o que foi salientado pelo Marco na sexta-feira. Eu aprendi isso muito bem quando fiquei 10 dias em silêncio em um retiro de meditação Vipassana nos EUA, pois lá eles são super rígidos e era terminantemente proibido ter aquele papo via olhares com seus coleguinhas. Nada de olhar 43! Era proibido olhar o outro, ponto!

A meditação que praticamos no retiro em Nazaré também vem do Vipassana e é chamada de meditação Anapana, que nos leva a ter atenção plena na respiração. O mais irônico é que essa meditação, pra mim, é a mais difícil de praticar e foi a que me levou a ter quase um surto psicótico (ok, estou exagerando, mas vamos lá) nos 10 dias em silêncio que fiz. Quando descobri que iríamos ter essa belezura de companhia olhei pra cima e pensei que quem quer que more no Cosmos devia estar bem rindo da minha cara! Ao mesmo tempo, agradeci a oportunidade do Universo em me permitir praticar a paciência, entrega e disciplina com a Anapana.

O silêncio não foi tão desafiador pra mim. Por ter tido duas experiências anteriores (no retiro de 10 dias quase fugi no segundo dia!), e por estar carente da quietude, acredito que a mente já tinha acostumado-se com a proposta. O desafio foi mesmo o tipo de prática que estávamos fazendo e também as dores corporais que sentia, originadas de uma queda de uma mula (não vou nem entrar neste detalhe, que dá outro texto…). No entanto, fui usando todos os conhecimentos dos últimos 7 anos de cursos, certificações, estudos e práticas que, aliados a guiança doce e assertiva de Marco, me proporcionaram muitos momentos importantes, de ancoramento. Mas não pense que foi fácil, só não foi difícil. Entendeu a diferença?

Como Marco com propriedade nos ensinou: “meditação não é experiência, meditação é estado”. E o silêncio ajuda muito nessa percepção. Ao nos silenciarmos, estamos plenos e atentos ao momento presente e com isso tudo pode tornar-se uma meditação. Outro conceito do nosso instrutor que gostei muito foi o de que com a meditação aprendemos a acolher. Acolher tudo o que vem. Gostei porque é bem mais coerente do que a palavra aceitar. Aceitar carrega um pouco a vibração de resignação, de não termos muito o que fazer a respeito. Acolhimento não. Acolhimento significa abraçar o que vem e fazer o melhor possível com o que é!

Então a meditação torna-se um processo de observação e acolhimento de pensamentos, sensações, emoções. Ao mesmo tempo é um deixar fluir! Parece ser exaustivo (e pode ser que seja, então acolhe minha gente!), mas muitas vezes é revelador e transformador. E nesse processo conseguimos entrar em contato com nosso Eu Divino, nossa plena essência, o que somos de verdade, sem títulos, máscaras, julgamentos. Nesse espaço estamos unificados com o todo e é nesse espaço que alcançamos a paz interior para seguir a caminhada com curiosidade e encantamento.

O encontro com a água

Como parte da nossa vivência meditativa, um dos momentos especiais foi a visita a uma represa (parte do sistema de represas prestes à secar em São Paulo) que fica muito próxima do Nazaré Uniluz. Em silêncio, primeiro fizemos uma caminhada pela região, praticando a meditação ativa, e encerramos nossa prática na represa. Marco havia nos preparado e ensinado um ritual para honrar a água, mas acredito que ninguém estava realmente pronto para a cena desoladora. Muitos metros de solo seco, rachado, repleto de conchinhas mortas. No centro, um raso lago, quase imóvel. Ao contrário da famosa música, o mar virou sertão…

Nos aproximamos da represa, muitos com olhos marejados e fizemos, cada um de sua forma, uma reverência, prece, uma cerimônia particular com a água. Meu coração batia forte. Segui as instruções dadas e ainda ofereci Reiki pra água. Tive vontade de cantar um mantra pra ela (RA MA DA SA SA SAY SO HUNG, mantra de cura), acalentar sua dor, mas não sendo possível cantei internamente e transmiti as vibrações pelas minhas mãos que a acariciavam. O sol estava se pondo e seu tom alaranjado tornava o cenário ainda mais desolador. Minha consciência e gratidão pela água dobrou nesse dia. Precisamos cuidar, respeitar, honrar o que nos é dado. Além disso, 70% de nossa constituição corporal é água. Se ela seca, nós secamos e endurecemos por dentro.

A entrega sagrada

Após uma sexta emocionante na represa, o sábado veio com uma surpresa: meditaríamos por uma hora, sem interrupções. A tensão era palpável na sala. Os olhares cruzavam-se tensos. Depois ficamos sabendo que uma das integrantes teve um ataque de riso em seu quarto, fruto do nervosismo mesmo… Eu sabia exatamente o que estava acontecendo, pois passei por isso no Vipassana. A mente “goes wild” (torna-se selvagem) e o medo de estar alí, tendo de lidar consigo mesmo por 60 minutos, tendo de evitar mover o corpo, nos apavora. Entramos todos na sala de meditação carregando um certo peso. Três sinos tradicionalmente tocaram. Silêncio. Respiração.

Então o milagre aconteceu. Essa foi a meditação menos barulhenta (sem espirros, tosses, movimentos bruscos) e mais harmônica vibracionalmente que vivenciamos. Era como se todos estivessem ali em uma corrente única, um ritmo só, fortalecendo um ao outro. Foi quando senti a coesão da nossa mini-comunidade (criada tão rapidamente), a garra, o poder coletivo. Ninguém surtou! Conseguimos e foi lindo! O observador separado do observado! Ao final, sorrisos tímidos mostravam que não era só eu que estava grata e orgulhosa do “todo mundo”, como Marco costuma nos chamar! A meditação em grupo unifica a vibração e tem um poder fantástico de transcendência!

No domingo, após o café da manhã e mais uma meditação, era hora de voltar a falar. Eu não queria quebrar o silêncio. Isso também significava que era hora de despedir-se, de dizer adeus àquele local abençoado, decorado por cantos de passarinhos, comida gostosa e boas energias. Voltamos para a sala de yoga. Pegamos outro cartão do oráculo dos anjos. Dessa vez, fui presenteada com o Anjo da Serenidade. Sim, calma e serenidade para voltar ao mundo e ter discernimento entre o que comunicar e quando calar. Muitas pessoas puderam dividir seus relatos dos 5 dias, todos chorávamos. Me senti rodeada de guerreiros, pois a verdadeira jornada é a interna, a de auto-desenvolvimento, o despertar interno.

Finalizamos cantamos uma música com apenas um refrão, que repete “Eu agradeço…”. Abraçados em círculo, lágrimas e sorrisos ampliavam a energia. O silêncio trouxe clareza pra alma, pro coração. Somos sim todos irmãos e irmãs e podemos, sim, transformar nossa realidade em algo mais sereno, leve, cooperativo, amoroso. Depois disso muitos e longos abraços. Que falta o toque faz! Que benção nossos corpos quando a troca é fraterna!

O almoço veio ainda mais especial, mas a vibração do grupo era tão alta que comemos bem menos do que de costume! Já estávamos alimentados de amor e paz. Todos despediram-se animados, contentes, completos! Impossível descrever a experiência em sua totalidade! Resta agradecer e relatar que foi uma transformação profunda.

O retorno ao Eu e a Vida

Eu, de sorriso aberto, consegui alcançar meus objetivos. Voltei para a vida “normal” com a cabeça refrescada, o coração bem mais aberto e a confirmação de que a minha caminhada está mais do que certa! Voltei para a rotina gostosa da meditação. Voltei com o que é importante fresco na mente e na alma. Como dizia Marco, voltei com o foco em “Me perder menos, me lembrar mais”… Estamos todos nessa jornada fantástica de relembrar a nossa essência… Lindo isso, não?

E o aquietamento das ondas mentais, definido como yoga por Patanjali, é essencial para esse processo, para esse reencontro com o Eu Divino que habita em cada um de nós. Então fica o convite para que você encontre momentos durante o dia para silenciar-se, para aproximar-se desse Eu. Pode ser por 1 minutos, 2, 5, 30, não importa! Tudo começa com a intenção e o efeito será benéfico mesmo que com um minuto de entrega. Obrigada pela leitura e te desejo muita paz e boas aventuras na sua jornada de busca interior! Beijo no coração e Namastê!

PS: Gratidão a Marco Schultz, nosso querido facilitador e mestre de jornada; a Nazaré Uniluz e a sua equipe inspiradora; a Camila, que me ofereceu carona e me presenteou com sua família linda e a todos os participantes que dividiram seu silêncio e sua autenticidade comigo!

Mais informações: http://nazareuniluz.org.br ou http://www.simplesmenteyoga.com.br

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